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Cultura em ebulição

Grandes shows e peças teatrais colocam Maringá no cenário nacional, mas o público também é brindado com produções locais feitas por quem tem vocação e nem sempre tem retorno financeiro

 

“A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte”. A letra da música dos Titãs bem pode ser aplicada em Maringá, a cidade que traz “canção” no nome tem recebido peças teatrais do circuito Rio-São Paulo, shows de artistas consagrados e até internacionais. Nos últimos meses estiveram na cidade as bandas Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii e os cantores Tiago Iorc, Sandy e Paula Fernandes, só para citar alguns. Apenas no mês passado, por exemplo, os maringaenses puderam curtir a banda Ira e a peça teatral ‘O pai’, com Fulvio Stefanini.

Não importa se é uma peça de teatro, um espetáculo de dança ou um show, ao sair de casa todo mundo espera encontrar programação de qualidade e casa cheia. Que o digam aqueles que estão nos bastidores, como Ricardo Michels. O publicitário que, além de produtor cultural, é empresário e vocalista da banda Kicking Bullets, possui duas marcas consolidadas no ramo cultural em Maringá. A primeira é o Luau do Kicking, que chega à 13ª edição em setembro. Criado para o lançamento do primeiro disco da banda Kicking Bullets, o evento se transformou em um case de marketing por se tratar de uma festa com ambientação e atrações praianas, mas que acontece a 500 quilômetros do litoral.

A segunda marca é o Teraluna Festival, que teve a quarta edição neste ano e é direcionado à música autoral produzida na região. A fórmula é trazer uma banda de renome no underground nacional, que é usada como headline, com o objetivo de atrair o público, e complementar o set com artistas locais. “Assim criamos a oportunidade para que artistas e compositores locais utilizem o festival como uma plataforma de divulgação de sua arte”, conta.

Michels também produz apresentações de outros artistas, além de uma média de 40 shows anuais da banda Kicking Bullets. No teatro, a quarta peça foi produzida neste ano. “Fizemos ‘A comédia do casamento de Romeu e Julieta’, em parceria com a Ben-Hur Produções. O espetáculo girou cidades do Paraná e terminou com seis apresentações em São Paulo, onde entrou nos circuitos Veja e Folha de S. Paulo”, acrescenta.

Mas trabalhar como produtor cultural em Maringá traz retorno financeiro? Para Michels, a experiência vem por meio de erros e acertos. Essa experiência ajuda a minimizar riscos, mas a certeza não existe na produção de eventos. “Trabalhar com eventos significa ter poder de investimento, batalhar pela redução de custos, assumir riscos e manter um controle de ansiedade constante”, enfatiza.

Ele estima que aproximadamente 20% do público presente nos eventos culturais é proveniente de fora de Maringá, o que movimenta outros segmentos envolvidos diretamente com a organização dos eventos, como segurança, limpeza e locação de equipamentos de som e iluminação, e aqueles que recebem a movimentação do público, como hotelaria, transporte e alimentação.

 

De Maringá para o Brasil

O empresário e produtor cultural Ben-Hur Prado também é apaixonado pelo que faz. Um paulistano que abandonou o curso de Direito e se mudou para Maringá há quase duas décadas. De lá para cá, divide o tempo entre administrar seu restaurante e a paixão pela cultura, em especial o teatro. “O foco de meu trabalho é exclusivamente o teatro, mas teatro feito por gente de teatro que tenha algo a acrescentar na vida da sociedade”, explica.

Prado trouxe a Maringá e região mais de 150 espetáculos, além de peças com produção própria. “As estreias nacionais das peças produzidas aqui são em Maringá e saem em excursão por cidades diversas, como ‘Mercador de Veneza’ (2011), ‘Um Edifício Chamado’ 200 (2012/2013), ‘A Dama de Negro’ (2014) e ‘Cabaret Farol (2015)’”, conta.

Ao ser questionado sobre o que costuma fazer sucesso em Maringá, Prado fala sobre a vocação rural da cidade que privilegia o sertanejo em todas as manifestações. “Se tiver uma dupla sertaneja, e de preferência famosa, o sucesso é certo. Mas isso é uma visão particular de quem aprecia poemas de Caetano Veloso, Cazuza, passando por Beatles e tantos outros que formaram meu gosto pelas letras e músicas”.

O produtor cultural enfatiza que o brasileiro não tem o hábito de ir ao teatro, o que torna a produção e a oferta de cultura de qualidade um desafio. “Se a temperatura cair, é a razão do público não sair de casa, se choveu, aí é que o público não vai mesmo. Nosso ofício é sofrido, mas embriagante. Não se faz fortuna com teatro. É vocação, crença”.

Em razão dos contratempos, somados às promoções e ao benefício da meia entrada, que representa mais de 80% das vendas em bilheteria, ele enfatiza que é difícil mensurar quanto o maringaense desembolsa com idas ao teatro, mas a preferência pela comédia salta aos olhos, assim como o desejo de ver de perto astros e estrelas da televisão.

Sobre a movimentação turística de Maringá, ele diz que quem saiu de casa ou de uma cidade próxima para assistir a um espetáculo, certamente vai buscar um bar ou restaurante após a apresentação. No entanto, admite: “o turismo cultural ainda é uma realidade distante de nós”.

 

Incentivo cultural

Outra apaixonada por teatro é a jornalista e produtora Rachel Coelho, que decidiu formalizar a empresa 2 Coelhos Comunicação e Cultura, em 2014. Com experiência de três anos na Secretaria da Cultura de Maringá, onde coordenou o projeto Convite ao Teatro, e dois anos na produção de mostras contemporâneas, Rachel se considerou preparada para desenvolver os próprios projetos.

Um deles é o ‘Só em Cenas’, uma mostra de solo e monólogos que entra na segunda edição. Os espetáculos serão apresentados de 18 a 26 de novembro, com o apoio da Lei Rouanet, Viapar e Instituto Cultural Ingá (ICI). Outro projeto, iniciado em 2016, é o ‘Foca’, com a capacitação de atores e técnicos de espetáculos locais.

Além disso, Rachel atua com montagem de espetáculos por meio de editais. ‘Clodimar’ foi um dos contemplados este ano pelo Prêmio Aniceto Matti, pela Secretaria da Cultura de Maringá, e teve minitemporada de 28 a 31 de julho. A produtora trabalha ainda em parceria com a atriz Márcia Costa: a peça ‘Tempos de Cléo’, por exemplo, foi contemplada pelo Prêmio da Fundação Nacional de Arte (Funarte), em 2014, e estreou no ano seguinte. “Naquele edital apenas sete projetos do sul do país receberam o benefício”, destaca.

Rachel continuará reunindo esforços para trazer mais espetáculos para Maringá. “Temos estrutura e público, então, podemos ser incluídos no circuito cultural”, avalia. Embora admita não ser fácil viver de produção cultural, ela tem visto a empresa crescer. “Estou conseguindo me manter com a empresa. É difícil, mas vou continuar me dedicando à cultura porque sei que vale o esforço”.

 

Ingressos na véspera

O produtor cultural Paulo Aloísio Schoffen, o Paulinho Schoffen, acredita que o público maringaense é bem diversificado. “É um público que ainda está em formação. Claro que a cultura do entretenimento é forte, porém, o maringaense é aberto a conhecer arte”, explica.

Ao ser indagado sobre o retorno financeiro de seu trabalho como produtor cultural, Schoffen esclarece: “é um trabalho ‘árduo’, porém, tem seus benefícios, que não são necessariamente financeiros. Poder trabalhar com o que se acredita e acha essencial também traz retorno”.

No momento, o Cottonet-Clube Produções Artísticas, projeto de Schoffen, está produzindo a segunda edição do Maringá Blues Festival, que acontecerá em 23 de setembro, no Clube Hípico.

Além dos produtores locais, há empresas que não são maringaenses, mas que trazem eventos para a cidade, como a londrinense MG Entretenimento. O proprietário, Marco Giustino, explica que os shows que a empresa traz para Maringá geralmente foram bem aceitos em Londrina. “Cada cidade tem seu perfil. Cada praça reage de um jeito ao artista, ao preço do ingresso etc. Mas 80% dos eventos que promovemos em Maringá são positivos”, conta.

Giustino revela uma peculiaridade dos maringaenses: “Culturalmente, o londrinense tem o hábito de comprar o ingresso com mais antecedência. Em Maringá a procura maior se concentra nos últimos dias de venda”.

Entre os eventos que a MG Entretenimento realizou em Maringá estão a peça ‘Meu passado não me condena’, com a atriz Fernanda Souza, o show de stand up de Paulo Gustavo, shows da banda Renato e Seus Blue Caps, da cantora Paula Fernandes e dos Titãs. Em outubro, a empresa irá trazer a dupla Cristian e Ralf.

Falando de empresas que trazem eventos culturais para a cidade, em junho a Sancor Seguros patrocinou um dos maiores espetáculos de tango do mundo, o ‘Señor Tango’, dirigido e produzido pelo cantor Fernando Soler. Diretamente de Buenos Aires, na Argentina, o espetáculo trouxe clássicos como ‘Não chores por mim Argentina’ e ‘Mi Buenos Aires querido’. A apresentação foi no Teatro Marista e fez parte das ações que a Sancor realizou em comemoração aos 70 anos de Maringá.

De acordo como analista de marketing da Sancor, Pedro Bueno, o show teve grande aceitação pelo público maringaense. “Entendemos que o apoio a movimentos culturais que enriqueçam e tragam bons momentos para a vida das pessoas seja uma forma de reforçar os valores que pregamos em nossas ações”, explica.

O diretor executivo do Instituto Cultura Ingá (ICI), Miguel Fernando, diz que a produção artística e cultural de Maringá tem se beneficiado da profissionalização dos produtores, agentes e artistas, por meio de capacitações como as promovidas pelo instituto, ações estratégicas com empresas, que encontram na cultura uma oportunidade de divulgar sua marca, e parcerias com instituições de ensino. “A produção de espetáculos aumentou muito, principalmente com os recursos angariados via lei Rouanet e com os patrocínios das empresas”.

Ele, porém, ressalta que apesar do crescimento das produções feitas ou trazidas na cidade, ainda não há um estudo sobre o impacto das artes e cultura na sociedade local.

 

Calendário público  

Do lado da iniciativa pública, a Secretaria de Cultura promete um calendário com diversas atrações – incluindo opções gratuitas – até o final do ano, dentre  elas a Festa Literária Internacional de Maringá (Flim), que acontece entre 26 e 29 de outubro, a Virada Cultural, de 17 a 19 de novembro, e o Festival de Teatro de Bonecos, 27 de novembro a 1º de dezembro. Ou seja, é cultura de sobra para maringaense nenhum botar defeito.