Economia

Para se comunicar no mundo inteiro

Ter fluência em uma língua estrangeira, principalmente inglês, é chave para alguns tipos de funções e negócios; que o digam as escolas de idiomas, que recebem alunos que querem se preparar para necessidades pontuais e ascender na profissão

Quem teve dificuldade de ler um artigo em outro idioma na internet? Ou não conseguiu se expressar da forma adequada em uma reunião de negócios com parceiros estrangeiros? Essas são situações difíceis do cotidiano para quem não domina um segundo, ou terceiro, idioma e podem trazer prejuízos no ambiente corporativo. Ter fluência em inglês ou espanhol é um diferencial no currículo, e tem sido imprescindível para alguns tipos de negócios.
Que o diga o empresário Clemilson Roberto Correia, CEO da Buysoft, que atua com soluções em software. A decisão de aprender definitivamente o inglês veio depois dele ficar envergonhado em reuniões de uma grande distribuidora, em que ocupava cargo de liderança. “Não conseguia me comunicar, era horrível”. O empresário começou a estudar por conta própria e, nesse processo, conheceu um método norte-americano de aprender ouvindo. “Me empenhei muito. Até comecei a ir a pé para o trabalho para escutar as aulas no caminho, e cheguei a dormir com o fone no ouvido”, conta. Depois de três meses, ao assistir a uma série, ele percebeu que começava a entender a língua. “Fiquei motivado e continuei estudando. Em seis meses fiz até tradução simultânea, foi um grande progresso, mas claro que sigo exercitando e aperfeiçoando o inglês”.
A fluência no idioma, bem como o conhecimento intermediário em espanhol, tem sido fundamental para Correia, principalmente agora que é dono do próprio negócio. Mostra disso é que o empresário consegue fazer negociação direta com a Microsoft e outros fornecedores dos Estados Unidos. Inclusive, ele foi convidado a ser membro do Conselho da Microsoft na América Latina, em que participam 20 executivos de vários países. “Sem o inglês nada disso seria possível. Tenho concorrentes que não acessam esse mercado porque não falam o idioma”.
Com 35 colaboradores, sendo cinco fluentes e dez com conhecimentos intermediários em inglês, Correia diz que é difícil encontrar profissionais bilíngues e que estes são disputados no mercado. Por esse motivo, a exigência é amenizada para determinadas funções, mas é inegociável em cargos de diretoria e gerência. “Já enviei diretores, técnicos e gerentes para reuniões e conferências nos Estados Unidos. Já os vendedores fazem contato com clientes brasileiros e não com fornecedores estrangeiros. Mesmo assim é importante que se interessem porque nossos produtos têm especificações em inglês. Incentivamos a capacitação por meio de convênio com escola de idiomas”, afirma.
Já a motivação da empresária atacadista Gizele Aparecida da Silva para aprender inglês veio após uma viagem a lazer. Após se casar, ela viajou para a França e Inglaterra. Lá, conheceu pessoas de diversos países, entre eles Filipinas, Alemanha, Japão, China e Angola. “Percebi que a única língua que fazia com que pudéssemos nos comunicar era o inglês. Só que não tinha esse inglês, até porque achava que nunca ia precisar. Sofri porque tinha muita coisa que queria conversar, expressar, saber e entender, mas havia essa barreira de comunicação”, conta.
Ela, que é proprietária de uma loja de roupas no Shopping Avenida Fashion, planeja duas viagens internacionais no ano que vem a negócios. Para aproveitar ao máximo as oportunidades de interação com outros profissionais do ramo, Gizele decidiu estudar inglês. “Quero me preparar melhor porque pretendo explorar o mercado da moda lá fora e trazer esse conhecimento para o meu trabalho”, acrescenta.
Pensamento em inglês
Boa parte dos alunos que procura a Amazing Intelligent English School, que atua em Maringá desde 2003, tem o intuito de dominar a conversação em inglês. Porém, o diretor Elcio Antonio Mendes Filho enfatiza que as habilidades estão interligadas, ou seja, não é possível aprender a escrever e falar se não aprender a ler e escutar.
Outra parte dos alunos costuma procurar a escola para se preparar para exames de proficiência. A Amazing oferece seis modalidades de estudo do inglês, que vão do iniciante ao avançado, até o preparatório para certificações internacionais. Além disso, atende in company e oferece aulas individuais.
“Somos uma escola isenta de tradução e, portanto, ensinamos a pensar em inglês. Esse é um dos motivos que fazem com que os alunos desenvolvam a comunicação e não somente aprendem a ler e escrever. É muito comum encontrar pessoas que estudaram inglês, mas só sabem ler e escrever e não desenvolveram a habilidade de se comunicar no idioma”, explica Mendes Filho.
O diretor diz que a imersão está presente em todo o curso. “O intuito é induzir o aluno a ser exposto ao idioma diariamente. Essa técnica de memorização diária do aluno exige ao menos 30 minutos de dedicação extra”, conta.
Rotinas em português
A Cultura Inglesa de Maringá utiliza o “pós-método informado”, ou seja, é feita uma análise dos objetivos de cada aluno, e a partir disso, escolhem-se as metodologias, levando os estudantes a pensar, entender, falar, ler e escrever na língua estrangeira, no caso, em inglês.
Segundo a mestre em Educação para Linguagem, Beatriz Magalhães Silva Meneguetti, que é diretora e sócia da Cultura Inglesa, o objetivo primordial é fazer com que o aprendizado seja feito de maneira natural. “A abordagem baseia-se em contextualização e em não-tradução”, explica.
No Brasil, como a funcionalidade do dia a dia acontece em português, como ir ao banco, fazer compras, ir ao restaurante, são raras as oportunidades de usar o idioma para obter um serviço ou produto, o que dificulta a prática de língua estrangeira fora da sala de aula. De acordo com Beatriz, é importante que haja exposição frequente à língua estrangeira. Isso pode ser feito por meio de atividades relativas às aulas, exercícios complementares – que podem ser realizados em plataformas online – revisões ou atividades extras, como leitura de livros. Outras atividades aconselhadas são assistir a filmes em inglês e ouvir músicas.
Beatriz explica que, normalmente, o profissional que procura o curso de inglês tem uma agenda apertada e necessidade de aprender rápido a língua. Muitas vezes ele já fala inglês, mas precisa melhorar para se preparar para uma entrevista com grupo internacional.
A Cultura Inglesa também é procurada por adultos que nunca tiveram a oportunidade de aprender uma língua estrangeira e precisam do básico para participar de viagens e encontros de negócios. “Poucos são os profissionais que continuam seus cursos de inglês para atingir altos níveis de proficiência sem uma demanda pontual e específica”, explica.
Segundo ela, também houve um aumento de jovens se qualificando para que, ao entrarem definitivamente no mercado de trabalho, não tenham problemas de comunicação em língua estrangeira. “Não basta dizer que sabe falar inglês, tem que comprovar, por isso, a busca da qualificação com reconhecimento. As mais reconhecidas são as das Universidades de Cambridge, Michigan e da ETS – todas aplicamos em Maringá”, conta a diretora.
Na infância
Muitos pais têm investido em cursos de idiomas e na educação bilíngue. Na escola Saint Helena Bilingual Education, em Maringá, a metodologia é de imersão em inglês por duas horas diárias, totalizando dez horas semanais de exposição ao idioma. A escola tem sinalização e quadros informativos em inglês, além de exposições das atividades realizadas pelos alunos.
De acordo com a coordenadora pedagógica da Língua Inglesa e Educação Infantil, Janeth Shudo Belido, a metodologia faz com que a aprendizagem seja real e significativa. “Usamos a teoria de Stephen Krashen como base para nossa prática, além da abordagem Content Language Integrated Learning (CLIL), que significa dizer que ensinamos através da língua, e não a língua em si mesma”, explica.
Janeth conta que o calendário escolar não é o mesmo dos Estados Unidos. A instituição segue o padrão nacional, uma vez que a escola é bilíngue e não internacional.
Os docentes responsáveis pelas aulas em língua inglesa são bilíngues, com formação em Letras ou Pedagogia, ou áreas afins, além de possuírem certificação internacional. As disciplinas que fazem parte da Base Nacional Curricular Comum (BNCC) são ministradas em língua portuguesa. No entanto, ao utilizar o material com abordagem CLIL, os “teachers” de inglês também ensinam assuntos relativos à matemática, ciências e artes nesse idioma.
A escola também se preocupa em oferecer aulas de teatro e empreendedorismo para as crianças do Ensino Fundamental I. “São disciplinas importantes para a formação humana, além de serem valorizadas por escolas ao redor do mundo”, conta.
A partir do quarto ano do Ensino Fundamental, os alunos são avaliados pelos testes da Universidade de Cambridge. “Consideramos importante termos a aferição de órgãos externos que venham atestar a qualidade de nosso ensino”, acrescenta.
Inglês até na cozinha
Na Escola Criarte, há seis anos, com a implantação da educação bilíngue, os alunos a partir do primeiro ano vivenciam o inglês de diversas maneiras. No contraturno, duas horas por dia, eles assistem às aulas de inglês, em que é trabalhada intensamente a comunicação, e de outras disciplinas, como ciência e culinária, ministradas no idioma.
Segundo a diretora Cristiane Strozzi, todo ambiente é bilíngue: por exemplo, desde os colaboradores da secretaria aos da cozinha falam inglês o tempo todo, já que o foco da instituição não está na gramática, mas na habilidade da fala. “Quando o aprendizado se inicia na infância, vivenciando o cotidiano da língua, até a maneira de pensar do aluno muda”, diz.
A escola firmou parceria com a Aiesec, uma organização mundial de estudantes que promove intercâmbio entre universitários. Há cinco anos intercambistas que vêm a Maringá para estudar trabalham com os alunos os objetivos do milênio em inglês. Além de conversar com nativos da língua, as crianças conseguem aprender mais sobre a cultura de outros países.
Estudos
Para a pedagoga e doutoranda em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), Taissa Vieira Lozano Burci, a aprendizagem de outas línguas tornou-se uma necessidade. A estudante precisava adquirir proficiência em duas línguas estrangeiras para concluir o doutorado. Uma das opções escolhidas foi o inglês.
“Os alunos têm prazo para entregar o certificado de aprovação nos exames de proficiência. Precisava de um curso intensivo que atendesse às minhas necessidades e se adequasse à minha disponibilidade de horários. Consegui concluir o curso em um ano, fiz o teste e fui aprovada”, conta a doutoranda em Educação.