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“Já realizei meu sonho de vida”

João Cantagalli largou um alto cargo de executivo em multinacional para apostar no próprio negócio; no começo precisou até carregar caminhões, criou produtos que deram certo e outros que tiveram que sair da linha de produção, mas enfrentou tudo com muita persistência

 

Orgulhoso da empresa que construiu e feliz com a vida ‘tranquila’ em Maringá, perto da família e dos amigos, o empresário João Cantagalli se diz uma pessoa realizada. “Já realizei meu sonho de vida, e está muito além do que desejei. Nossa ambição é apenas familiar, de estar perto e bem”, afirma o fundador da Crivialli, especializada em produtos de higiene e limpeza.

Cantagalli, no entanto, não segura a emoção ao falar do prêmio Empresário do Ano, que receberá em 25 de agosto, no Moinho Vermelho. “O coração está apertado”, confidencia sobre o título concedido, pela ACIM, Sivamar, Apras e Fiep, dada a sua trajetória à frente da empresa fundada em 1996, em um pequeno galpão alugado de pouco mais de 200 metros quadrados. “Era tudo improvisado e misturado. O escritório ficava numa saleta e todos os departamentos funcionavam ali, inclusive a fabricação”, recorda.

Em pouco mais de 20 anos Cantagalli transformou a pequena indústria com dez colaboradores em um negócio com 300 funcionários e duas fábricas próprias. O mix de produtos saltou de quatro para cerca de 300 itens, somadas as linhas da Crivialli e da H2O Cosméticos – empresa incorporada posterior- “Já realizei meu sonho de vida” mente. A gestão é compartilhada com a esposa, Sandra, um dos dois filhos e com a equipe. Em entrevista à Revista ACIM, o Empresário do Ano fala sobre carreira, mercado, planos de expansão e os desafios empresariais. Confira:

 

Antes de abrir o negócio próprio, o senhor ocupou diversos e importantes cargos na Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro (Sanbra). Como foi passar de executivo de uma multinacional a empresário?
Foi uma mudança radical. Deixei para trás aquele glamour de trabalhar numa multinacional, em que cheguei a ser gerente nacional, para abrir um pequeno negócio em outubro de 1996 a ponto de eu mesmo carregar e descarregar caminhões. Os primeiros quatro anos foram de muito suor e doação física e mental. Quando se abre um negócio dificilmente abre-se com grande capital. É uma luta para colocar um tijolo por dia e torcer para as coisas darem certo. O conhecimento adquirido na multinacional foi importante nesse processo.

 

Sempre teve vontade de empreender?
Quando eu e minha esposa fomos para São Paulo, em 1985, tínhamos o propósito de fazer um ‘pé de meiae voltar para Maringá porque aqui estava a nossa família. Depois de um tempo fui transferido para Porto Alegre, e essa mudança complicou a logística familiar. Lá fiquei dois anos. Em 1994, quando estava para ser transferido novamente, dessa vez para Santos, foi aberto um plano de demissão voluntária. Achei que era hora de sair e colocar em prática o desejo de ter um negócio próprio e fazer carreira solo.

 

Que tipos de percalços enfrentou na abertura do negócio próprio?
Quando a empresa é pequena, ninguém te vê como concorrente. A partir do momento que se ganha mercado, a situação muda. Quando começamos a aparecer no cenário, ao menos no Paraná, fomos bombardeados pela concorrência que tinha mais estrutura e poder de fogo, especialmente no quesito preço, tão importante ao consumidor. Também sofremos com os altos e baixos da economia nestes 20 anos, bem como com as inúmeras mudanças tributárias. Produtos que não tinham incidência do IPI passaram a ter.

 

Quanto a inovação é importante no seu setor?

Os produtos mais consumidos hoje são amaciantes de roupa, lava-louças e desinfetantes. Embora seja mais fácil vender produtos que todos consomem, a lei da oferta e da procura os torna quase insustentáveis economicamente. Há uma guerra de preços. Por isso criamos produtos alternativos. Alguns deram certo, abriram mercado e hoje são comercializados nacionalmente. Outros não tiveram êxito e desistimos da produção. Além da linha doméstica, criamos uma linha pet e outra automotiva. Os produtos para cuidados de pequenos animais e carros nos ajudaram a ganhar mercado, fidelizar clientes e crescer economicamente.

 

O Brasil enfrenta a maior recessão econômica, e o setor industrial foi um dos mais afetados. De que forma a Criavialliestá passando por esta crise?
Fizemos os ajustes necessários diante das previsões de queda no consumo. Em 2016 prevíamos um crescimento acima de 20% e crescemos 18%. Esse resultado foi obtido por meio de várias ações, como a reestruturação da área comercial. Fatiamos em mais frações visando uma atuação mais pulverizada nas vendas. Desta forma conseguimos crescer na mesma região geográfica e chegamos a lugares onde não atuávamos. Essa estratégia fazia parte do nosso planejamento antes da crise e nos beneficiou muito. Participando de feiras fechamos parcerias nas regiões norte e nordeste. Entramos na Bahia, Pará, Amazonas e no interior de Pernambuco, regiões que estão a três ou quatro mil quilômetros de distância. O nosso mixde produtos foi bastante decisivo para isso. Produto de limpeza não é algo que explode quando há euforia econômica, e nem cai muito em períodos de recessão. Afinal, são produtos que todos precisam consumir. O que atrapalha é a entrada massiva de produtos paulistas devido à proximidade entre o Paraná e São Paulo. Lá a recessão foi muito forte e os grandes fabricantes acabam ‘exportando’ seus estoques para outras regiões e derrubando os preços.

 

Sua empresa exporta para países da América do Sul. Há planos de expandir para outros países?

Exportamos para Paraguai, Uruguai, Venezuela e Bolívia. Há negociações para aumentar nossa presença no mercado internacional, porém as barreiras sanitárias prendem a expansão. A burocracia para estar apto para exportar é grande, o que é uma pena porque isso impacta no crescimento das exportações, mesmo no Mercosul. Além da burocracia, o custo é alto para legalizar os produtos junto aos órgãos reguladores. Há muitas restrições para a venda de produtos domésticos e cosméticos. Mas ainda assim vale a pena olhar para o mercado lá fora.

 

O que o senhor vislumbra para a empresa?

Abrimos neste ano uma gerência regional de vendas em São Paulo que atenderá também Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Hoje temos condições físicas, marcas, distribuição e parcerias fortes para colocar o pé nesses três grandes mercados, os maiores do país no quesito consumo. Esse será nosso grande desafio para os próximos anos. Numa próxima etapa devemos abrir um centro de distribuição lá. Já a produção segue concentrada em Maringá.

 

Quais os principais desafios da classe empresarial no país?

Faltam incentivos e benefícios fiscais, principalmente na região sul do país. Sem incentivo, uma empresa pequena não consegue entrar no mercado competitivo. A carga tributária também judia. São tantos impostos e tantas mudanças que o empresário fica refém de situações que podem até enquadrá-lo em crimes. Em relação à economia, há a dificuldade do consumo, que cai com o desemprego.

 

Se alguém lhe perguntasse qual é o caminho para o sucesso, o que diria?
Pesquisar muito. O grande trunfo é estarmos num país continental, com uma enorme variação de oportunidades, culturas e regiões. Tem mercado a ser explorado, mas tem que pesquisar bem antes e entender o seu produto. Hoje todos querem lucrar, não existe fidelidade. No passado as coisas demoravam um pouco mais para acontecer. Hoje o ciclo está muito rápido.

 

O senhor pensa em aposentadoria?

Estamos com uma equipe experiente que toca o negócio sem a minha presença física, embora eu ainda vá todos os dias na empresa. Estou mais na estratégia e nas grandes decisões. E este modelo de gestão deve durar por alguns anos. Não penso em me afastar.

 

Se o senhor tivesse que se definir em uma palavra, qual seria?
Persistente. Gosto de acordar de manhã e saber que terei desafios pela frente, que terei que fazer alguma coisa nova.

 

E o que representa entrar para o grupo de homenageados como o prêmio Empresário do Ano?

Significa muito. Nunca me imaginei nesta posição, nesta honraria. Não só eu estou bastante surpreso e gratificado, como toda nossa equipe. Todos vibraram muito.