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O sonho possível e o impossível

Depois de uma bem-sucedida trajetória na natação, Gustavo Borges se tornou empresário e difunde sua metodologia em mais de 400 estabelecimentos; “tem um monte de gente que capricha, se dedica, é grato por aquilo que faz e não consegue sair do lugar. Talvez o afinamento com o sonho seja a diferença”

 

Quando pulou na piscina do Complexo Bernat Picornell, local das provas de natação dos Jogos Olímpicos de Barcelo na em 1992, Gustavo Borges realizou um sonho de garoto. Com apenas 10 anos, ele já vislumbrava se tornar um atleta olímpico. E a realização desse sonho foi em alto estilo. Em sua estreia, o nadador conquistou a prata nos 100 metros livre, quebrando o jejum brasileiro de medalhas na natação olímpica que vinha desde 1984. Depois disso participou de outras três edições de jogos olímpicos, conquistando um total de quatro medalhas, e sagrou-se recordista mundial.

Em quatro participações nos Jogos PanAmericanos, subiu ao pódio 19 vezes. “Ter um sonho é essencial para chegar a algum lugar”, afirma Borges, ao ser questionado sobre o caminho para construir uma carreira de sucesso. Este é um dos ensinamentos que o ex-nadador e agora empresário transmite nas palestras que ministra país afora desde que se aposentou das piscinas, em 2004. Também faz parte da filosofia do Método Gustavo Borges, adotado por mais de 400 academias e clubes, inclusive com exclusividade pela CEMS em Maringá. Em entrevista à Revista ACIM, Borges falou sobre a carreira como atleta, conquistas e a nova fase como empreendedor:

Ter um sonho é o primeiro passo para uma carreira de sucesso?

Ter um sonho é essencial para chegar a algum lugar. É importante ter uma meta e expressar essa meta, verbalizar isso. Depois é colocar todo o trabalho e a dedicação para que as coisas aconteçam de acordo com o seu propósito.

E o que precisa ser levado em consideração na hora de definir metas e traçar o planejamento?

Podemos sonhar com o que quisermos. Inclusive é legal termos um objetivo grande, porque se tem a percepção de quase impossível. Se você conta para outra pessoa, ela vai dar risada e pensar: ‘nossa, é tudo isso que você quer?’. Temos que ter um sonho grande. Já os objetivos e as metas de curto e médio prazo são para ajudar nossa tática para chegar a esse sonho. Para isso, é preciso levar em consideração a área de atuação e onde se quer chegar. Depois visualizar isso e ser um pouco audacioso em relação a essa busca. Às vezes temos sonhos e objetivos factíveis e tangíveis demais. Quero ter um carro? Pode ser um sonho e é legal, mas depois que tiver o carro, o que vai acontecer? Quero ter uma casa própria, e depois? Quero participar de uma Olimpíada, o que vai acontecer depois que você participou? É sempre bom ser audacioso para termos um sonho do tamanho da nossa imaginação e só aí vir para o mundo real.

Em suas palestras você destaca a excelência e o comprometimento como fundamentais para alcançar o sucesso. São esses os pontos importantes para se tornar um profissional vitorioso?

Ter o sonho, a excelência e a conquista são algo normal na busca de qualquer pessoa. Você tem um objetivo, vai lá e faz repetidas vezes, e a conquista aparece desde que seja feito com excelência e com capricho, é um ponto fundamental. Agora tem um monte de gente que capricha, se dedica, é grato por aquilo que faz e não consegue sair do lugar. Talvez o afinamento com o sonho seja a diferença. Talvez o sonho não estava adequado, talvez tem que sair do lugar, ter uma atitude positiva e ser audacioso.

Nas piscinas você teve dois grandes rivais: o brasileiro Xuxa e o russo Alexander Popov. É possível fazer da rivalidade e da concorrência um incentivo para superar barreiras?

Sem dúvida, eles foram dois dos meus maiores rivais. E acredito que a rivalidade e a concorrência ajudam a enfrentar todos os desafios. Eu tenho admiração pelo Popov, pelo Xuxa, pelos meus adversários, porque se consegui vitórias fazendo tudo o que fiz em termos de treinamento, imagino o que eles também tiveram que fazer para competir no mesmo nível, para brigar braçada a braçada. É uma motivação para desenvolver e superar barreira.

Antes de deixar as piscinas, pensava em ser empresário?

Sempre tive espírito empreendedor, queria fazer negócio, acompanhava meu pai. Gosto de números e de administração.

E como foi a transição de nadador para empresário e empreendedor?

A transição demorou uns quatro anos, mas deu tudo certo. A maior dificuldade da transição é deixar de fazer algo que você ama para começar a fazer outra coisa que está começando a entender o que é. Talvez precise de desenvolvimento da competência, dedicação, busca do conhecimento insistentemente e desenvolvimento pessoal que faz parte do nosso dia a dia. Há dificuldades também que todos enfrentamos.

Qual era a sua principal motivação quando nadava? E qual é agora como empresário?

Tanto como empresário como nadador a motivação é a mesma, é ter um propósito, é ter um sonho maior. Por exemplo, participar de uma olimpíada foi o sonho inicial. Participar de olimpíadas e ganhar medalhas foi outro. Hoje essa responsabilidade e essa bagagem de ter me tornado uma pessoa pública acabam trazendo um propósito para minha vida e também para os meus negócios, que é plantar uma sementinha do sonho impossível nas pessoas que tenho contato. Dá para fazer isso na empresa, na palestra motivacional, na relação com os clientes e com todos que entram em contato.

Qual foi a maior conquista como nadador? E como empresário, até agora?

Como nadador foram as quatro medalhas olímpicas, sem dúvida. E como empresário acho que foi construir uma rede de licenciamento que impacta a vida de mais de 170 mil alunos de natação, uma rede de clientes no Brasil com mais de 400 licenciados. Essa conquista de educar por meio da natação talvez tenha sido a maior conquista como empresário.

O que é a Metodologia Gustavo Borges e em quantas cidades está presente?

Estamos com aproximadamente 420 licenciados e presentes em cerca de 250 cidades no Brasil, Chile e Estados Unidos. Estamos ampliando o mercado internacional e sempre desenvolvendo a educação por meio da natação.

Por que decidiu compartilhar sua experiência também por meio de palestras?

Com as palestras há a chance de trabalhar em escala. Mas tem ainda mídia social, o contato com as pessoas e tudo é uma oportunidade de plantar aquela semente do sonho possível, porque essa semente a gente planta com mais facilidade. Agora a do sonho impossível, aquele que a gente não acredita ou tem um pouco mais de dificuldade de identificar por ser pouco audacioso na hora de pensar, talvez seja um pouco mais intrigante e desafiador de plantar.

Como é ver o seu filho Luiz Gustavo trilhando o mesmo caminho na natação?

Como pai, torcedor e parceiro é um orgulho vê-lo fazendo a mesma universidade [nos Estados Unidos], nadando as mesmas provas. Tem uma questão de legado e é muito legal. Ele está nadando bem, tendo resultado e isso me dá orgulho.

E que conselhos dá para ele driblar a inevitável comparação com a sua carreira?

Conselhos dou sim, mas já dei mais. Hoje ele está mais maduro, na faculdade tem o treinador, tem as pessoas que dão suporte. Mas pai é pai, é coruja. Estamos junto em poucos momentos hoje porque ele está morando fora do Brasil, mas temos uma relação de sintonia, de parceria e ele me escuta bastante.

É mais difícil ser esportista ou empresário no Brasil?

É tão difícil ser esportista quanto empresário. Os dois têm as suas dificuldades. No esporte a dificuldade de infraestrutura, de onde treinar, as oportunidades que você tem, quais as oportunidades constrói, parques aquáticos, parques esportivos, treinadores, capacitação. Essas são as dificuldades na área esportiva, que eram muito maiores na década de 1990. Hoje temos treinamento de alto rendimento no Brasil, ganha-se medalha treinando aqui. Na minha época a infraestrutura e o conhecimento técnico eram mais limitados. Empresário no Brasil é uma questão complexa, porque vai de encontro com problemas burocráticos, tributários, políticos e as interferências do governo em todos os setores. Para ter uma ideia, sou presidente da Associação Brasileira das Academias, a Acad Brasil, e acompanhamos mais de 150 projetos de lei que interferem no mercado de academias. O Brasil é o quinto país mais sedentário do mundo, além de termos problemas para vender atividade física, que é uma questão que envolve saúde e melhora de hábitos, precisamos lidar com o processo burocrático de governo atrapalhando, dificultando a vida do empresário brasileiro. Queremos menos interferência do Estado, para deixar o empresário trabalhar. Precisamos de políticas públicas e projetos para melhorar a vida do empreendedor no Brasil, porque é isso que gera emprego, é isso que gera riqueza.

Tem saudade das piscinas?

Tenho muita saudade, gosto de nadar e agora nado por lazer. Gostaria de estar com 25 ou 26 anos, ganhando medalha olímpica, subindo em pódio. Porém, também gosto da vida que tenho hoje. Tenho desafios bem diferentes dos que tinha quando era nadador, pela responsabilidade, pela idade, por tudo. E continuo sendo audacioso nas minhas metas.