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De desempregado a CEO de empresa bilionária

Depois de uma demissão, com R$ 10 mil de investimento, Guilherme Benchimol criou a XP, que no final do ano passado abriu capital nos Estados Unidos; para ele, as contas públicas se ajustando e os juros de 4,5% ao ano exigem mais riscos e diversificação na hora de investir.

 

Do desemprego a uma empresa bilionária. O início da XP Investimentos não teve nada de glamoroso. Começou depois que Guilherme Benchimol, vindo de uma família de médicos, foi demitido de uma corretora carioca. Ele pegou o carro, colocou a televisão no porta-malas e dirigiu até Porto Alegre, onde abriu a empresa em uma sala alugada de 25 metros quadrados, com investimento inicial de R$ 10 mil. Foi preciso vender o carro para manter as contas por alguns meses, entregar folder em prédios e muita persistência.

O negócio começou a deslanchar depois que a XP lançou um curso sobre como investir na Bolsa de Valores. Eram 30 vagas, que se tornaram 30 contas. Em 2017, quando a empresa planejava a abertura de capital, o Itaú Unibanco comprou 49,9% das ações por R$ 6,3 bilhões. Em dezembro do ano passado outro feito: a empresa brasileira captou US$ 2,25 bilhões na bolsa americana Nasdaq.

A oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da XP Inc foi a nona maior entre as principais bolsas mundiais em 2019. Fechou o primeiro dia de abertura com alta de 27%, com valor de US$ 19 bilhões, e é a empresa brasileira listada nos Estados Unidos com maior valor. Até o terceiro trimestre do ano passado, a XP tinha 1,5 milhão de clientes e R$ 350 bilhões sob custódia.

O CEO da XP também é uma das 50 pessoas mais influentes do mundo, segundo a Bloomberg. Em janeiro, ao voltar de uma viagem à China, Benchimol conversou com a Revista ACIM, onde falou sobre o início da trajetória, perspectivas de investimentos, entre outros assuntos. Confira:

 

Quanto a XP tem hoje sob custódia e quanto deve alcançar até o final de 2020?

Só posso falar sobre o nosso volume de custódia reportado do final do terceiro trimestre, que é a última informação que está pública. Fechamos setembro de 2019 com R$ 350 bilhões sob custódia e com 1,5 milhão de clientes.

De uma demissão para a fundação da maior corretora do país. Como foi seu percurso enquanto empresário até a XP Investimentos se tornar o que é hoje?

Comecei a empreender aos 24 anos, e o motivo que fez eu começar a empresa foi porque eu havia sido demitido da corretora carioca que trabalhava, e minha missão no começo era ter controle sobre a minha vida e não sentir essa sensação novamente. Comecei sem a ajuda de ninguém, sem apoio de família, sem sócio, aliás, tinha só um sócio que era tão duro de grana e inexperiente quanto eu. Tinha R$ 10 mil no bolso e simplesmente a vontade de correr atrás e de fazer acontecer. No começo o dinheiro foi acabando, tive que vender meu carro. Só quando descobri que se quisesse montar uma empresa de investimentos, o caminho era fortalecer a educação, que as coisas começaram a dar certo. Lembro que em 2002, quando o dinheiro tinha acabado de verdade, a gente lançou um curso chamado ‘Aprenda a investir na Bolsa de Valores’ e apareceram 30 alunos que pagaram R$ 300. Ganhamos R$ 9 mil em um fim de semana, e foi ali que a empresa começou a dar certo. Então esse foi o nosso começo.

Quais foram os maiores desafios para o crescimento da XP?

Diria que o nosso maior desafio para chegar até aqui tem sido o desafio  de credibilidade. O sistema financeiro é muito concentrado. Ele é tradicional também. Então, uma empresa que começou do zero com um garoto, como eu era chamado no começo da minha carreira, tem que vencer vários obstáculos. A gente foi trazendo sócios, investidores estrangeiros, que foram dando selo de qualidade até a chancela final que foi a abertura de capital na Nasdaq. Outro desafio importante, sem dúvida, é o fato de você ter que se reinventar muitas vezes, isso é um desafio grande. Uma coisa é você ser o CEO de uma empresa de duas pessoas, outra coisa é ser o CEO de quase três mil funcionários, com escritórios mundo afora, com abertura de capital.

Quais os planos para a XP Investimentos? Inclui ser um banco de varejo?
Os planos para XP, eu sempre digo, são fazer cada vez mais do mesmo melhor. Nosso market share ainda é muito pequeno. A concentração bancária no Brasil ainda é de 90%, então a gente tem uma avenida grande para continuar fazendo bem-feito aquilo que a gente já faz, aliás, mais bem-feito do que aquilo que a gente já faz. Realmente estamos entrando na vertical de serviços bancários, sem perder o foco de investimentos. Vamos continuar sendo uma empresa com o propósito de ajudar o brasileiro a investir melhor, mas o banco vai entrar para oferecer serviços que possam complementar o cliente e permitir que eles possam concentrar 100% dos seus investimentos com a gente. Então, em breve vai ter cartão de crédito, vai ter conta para fazer pagamentos, mas sem perder a essência que fez a gente chegar até aqui.

Por que o investidor deve buscar alternativa aos bancos?

O brasileiro sempre foi muito conservador e isso é muito derivado da política macroeconômica dos juros do Brasil. Desde o Plano Real, os juros médios no Brasil são de 13,5% ao ano, então, investir para o brasileiro sempre foi comprar CDB de um banco, um título público ou algo do gênero, porque você tinha o melhor dos cenários que era alto retorno, baixo risco e alta liquidez. Com as contas públicas se ajustando e os juros atuais a 4,5% ao ano, as pessoas precisam aprender a tomar risco, precisam aprender a diversificar e ter uma assessoria acaba se tornando fundamental, por isso o banco acaba ficando mais defasado nessa direção.

Para quem quer aplicar dinheiro sem correr riscos, quais investimentos você indica? E para os investidores dispostos a correr risco?

Para quem quer aplicar o dinheiro sem correr riscos, sem dúvida, o produto mais adequado é o Tesouro Direto, que é quando você compra títulos do Governo Federal, é o produto mais seguro do Brasil. E ele vai render mais ou menos o valor do CDI. Sobre a Bolsa, sou otimista com a valorização. Ela nada mais é do que a atividade econômica no Brasil, e eu não tenho dúvida de que com os juros cada vez menores, os empresários vão ter maiores chances de sucesso, a economia vai voltar a crescer, e se isso continuar acontecendo, naturalmente a Bolsa vai continuar se valorizando. Sou superotimista com a economia para os próximos anos e o principal motivo que me leva a acreditar nessa direção são as reformas e, acima de tudo, o patamar de juros atual que é de 4,5% ao ano. Quando você tem um juro nesse patamar, as pessoas ficam mais inclinadas a investir na economia real, a tomar riscos e isso faz a economia girar.

Como deve ser a cotação do dólar no primeiro semestre de 2020?

É muito difícil falar sobre a cotação do dólar. Não tem como falar um preço que estará, mas com o Brasil entrando no eixo e voltando a crescer de forma consistente e tendo estabilidade econômica, não tenho dúvida que cada vez mais investidores estrangeiros entrarão no Brasil. Então de forma macro, se isso se concretizar, acredito que tenha uma apreciação do câmbio, que o valor do real tenda a se valorizar em relação ao dólar. Sobre medidas essenciais para a economia são as demais reformas: administrativa e tributária são as maiores e, acima de tudo, tornar o nosso estado mais enxuto, ou seja, é importante que todo mundo tenha consciência que se o Brasil como Governo Federal gasta o dinheiro errado, naturalmente isso impacta a vida das pessoas, porque exige impostos maiores, exige juros maiores para que se possa financiar dívida e assim por diante. Tornar o estado mais eficiente, tornar a vida das pessoas melhor, é o mais importante. Enfim, se o Brasil tiver estabilidade econômica e continuar crescendo, naturalmente o investimento estrangeiro vai entrar.

Você afirmou que um dos motivos que levou a XP ao sucesso foi a adoção do partnership. Esse modelo pode ser adotado por qualquer empresa?

Sobre a partnership, entendo que ela se encaixa em qualquer segmento. Partnership nada mais é do que um formato em que você não é o único dono da empresa e passa alinhar os seus funcionários a você, ou seja, começa a criar um regime de meritocracia interna, onde as pessoas que se destacam passam a poder virar sócias de verdade, e esse alinhamento a longo prazo passa a ser muito importante, porque a pessoa que entra como sócia realmente tem destaque, ela é referência, e isso começa a criar um ciclo de meritocracia interna que estimula as pessoas e faz com que todo mundo dê o seu melhor.