O prato mudou… e o mercado também

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Novas escolhas alimentares redesenham o varejo e abrem oportunidade de negócios

Abusca por um estilo de vida saudável, somada ao avanço de medicamentos conhecidos como “canetas emagrecedoras”, tem alterado hábitos que durante décadas foram considerados praticamente imutáveis no varejo alimentar. Levantamento apresentado pela Associação Paranaense de Supermercados, em novembro de 2025, mostra que 71% das pessoas mudaram hábitos de consumo nos últimos 12 meses. O efeito aparece em diversas categorias: cresce o consumo de produtos proteicos e de opções zero açúcar ou sem álcool.

No mercado de bebidas brasileiro, a cerveja, por exemplo, apresentou retração de 11% no volume de vendas, refletindo principalmente a mudança de comportamento dos consumidores jovens. Ao mesmo tempo, bebidas não alcoólicas e funcionais ganham espaço.

O estudo mostra que transformações demográficas e sociais reforçam essa mudança no consumo. O número médio de filhos por mulher no Brasil caiu para 1,6, enquanto o número de animais de estimação por família chega a 1,8, alterando prioridades e padrões de consumo nos lares. Dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) indicam que, em quase 40 anos, o consumo de arroz e feijão caiu cerca de 30%, evidenciando uma mudança estrutural na dieta dos brasileiros.

Estilo de vida

Alinhada a essa tendência, a Joytable nasceu em 2021 para atender quem busca saúde e bem-estar no dia a dia. “Nossa proposta foi ir além da venda de suplementos e criar um espaço conectado ao estilo de vida saudável”, explica o empresário Rafael Brischiliari.

Entre os clientes estão desde praticantes de atividade física a pessoas que procuram suplementos por recomendação médica ou nutricional. Rafael destaca que existe uma mudança cultural em curso: alimentação, atividade física e autocuidado passaram a fazer parte da mesma conversa quando o assunto é saúde. “Antes, a suplementação era associada à estética ou à performance esportiva. Hoje, a busca está mais ligada à saúde, à qualidade de vida e à longevidade.”

O negócio, que começou com uma equipe de três pessoas, hoje conta com 14 colaboradores distribuídos em duas unidades em Maringá e tem registrado crescimento médio anual de faturamento em torno de 50%. A matriz também passou por expansão: saiu de 80 metros quadrados para mais de 160 metros quadrados para acomodar a ampliação do mix.

A empresa possui mais de 4 mil itens, entre suplementos, alimentos naturais, produtos funcionais, itens de skincare, moda fitness feminina e acessórios. “As proteínas, especialmente o whey protein, continuam entre os campeões de venda”, comenta. Outras categorias, porém, ganharam força, como colágenos, vitaminas, suplementos voltados à saúde intestinal e alimentos funcionais.

Na avaliação de Rafael, esse crescimento também está ligado ao uso das chamadas canetas emagrecedoras. “Esses medicamentos reduzem o apetite. Por isso, muitas pessoas buscam suplementos proteicos, vitaminas e produtos que ajudam a manter a nutrição equilibrada.”

Sem açúcar e sem álcool

Com 74 anos de mercado, a Distribuidora Virgínia acompanha de perto as mudanças no comportamento dos consumidores. Segundo o sócio comercial, Eduardo Buosi, o setor de bebidas sempre foi considerado estável, com transformações graduais ao longo do tempo.

Nos últimos anos, porém, uma nova categoria começou a ganhar espaço: o segmento chamado de balanced choices (escolhas balanceadas, em tradução livre), que reúne produtos com menos calorias, menos álcool, sem glúten ou sem açúcar. De acordo com Eduardo, essa categoria ainda representa cerca de 3% do mercado, mas tem crescido com o lançamento de produtos.

No caso dos refrigerantes, não houve queda no consumo total, mas uma mudança no perfil das vendas. “Houve migração para as versões sem açúcar ou zero”, explica. Há quatro anos, essas versões representavam menos de 10% do volume comercializado. Hoje, já respondem por cerca de 30% das vendas.

A distribuidora atende mensalmente cerca de 16 mil clientes com CNPJ, entre bares, restaurantes, mercados e novos pontos de venda. Entre eles estão salões de beleza, restaurantes focados em delivery e até academias de beach tennis. “O consumidor ampliou suas opções de compra e hoje temos mais canais. O volume de vendas acabou sendo diluído entre mais estabelecimentos”, afirma.

No faturamento da empresa, o impacto das novas categorias já se tornou relevante: produtos ligados a escolhas mais saudáveis representam atualmente 10% do faturamento e 7% do volume total comercializado.

Chocolate sem açúcar

A busca por equilíbrio alimentar não significa abrir mão do prazer de comer. Foi com essa ideia que Haroldo Beltrão Netto e a sócia Danusa decidiram investir na franquia da GoldKo, marca de chocolates sem adição de açúcar e sem gorduras hidrogenadas. A unidade de Maringá foi inaugurada em novembro.

“Queríamos empreender em uma empresa de chocolate, mas tínhamos receio de investir em algo que fosse apenas mais do mesmo”, conta Haroldo. “Quando recebemos os produtos e provamos, tivemos certeza da qualidade. É um chocolate com gosto de chocolate, mesmo sem adição de açúcar.”

O empreendedor estima um retorno do investimento entre 24 e 28 meses. Segundo ele, o principal indicador de sucesso tem sido a fidelização dos clientes. “O grande sinal de que o negócio tem potencial é a recorrência. As primeiras compras geralmente são de produtos de menor valor, mas, com o tempo, o cliente amplia o consumo.”

Entre os itens mais vendidos estão o marshmallow de pote sem açúcar e os chocolates recheados com marshmallow, além de bombons, barras de proteína e chocolates em barra vendidos a granel. A loja também oferece drageados, barras tradicionais, produtos veganos e opções sem leite; a maioria dos itens é sem glúten. Além dos chocolates, o espaço conta com cafeteria.

De acordo com Haroldo, 73% dos clientes são mulheres profissionais liberais, graduadas, das classes A e B, com idade entre 35 e 45 anos. “Elas formam opinião e acabam trazendo outras pessoas para conhecer a loja.”

Para o empreendedor, o maior desafio ainda é mudar a percepção do consumidor. “Muitas pessoas chegam com receio, porque ainda existe o preconceito de que chocolate sem açúcar tem gosto de adoçante. Quando provam, a percepção muda.”

Praticidade

A busca por praticidade faz parte da mudança comportamental do consumidor. Foi isto que levou o gastrônomo Felipe Alda a criar a Nature Light Food, em 2020, com foco em refeições saudáveis congeladas e personalizadas. A ideia surgiu em plena pandemia, quando ele começou a preparar marmitas congeladas para consumo próprio.

A iniciativa chamou a atenção nas redes sociais, e os pedidos começaram a aparecer. “Sempre tive dificuldades em me alimentar saudável por falta de tempo e praticidade. Era mais fácil chegar à noite e pedir um delivery do que descongelar carne, preparar tudo e lavar a louça. E, em meio a um momento de incerteza na Engenharia Civil, comecei a fazer alguns testes durante alguns meses”, completa.

Felipe abriu uma cozinha industrial em 2023. Hoje são 50 opções de refeições congeladas: a empresa lança um cardápio semanal com cinco opções, garantindo variedade ao longo do mês para os clientes que assinam os planos semanais ou mensais. A empresa também faz refeições personalizadas, montadas de acordo com o plano alimentar elaborado por nutricionistas. “Muitos clientes que seguem dietas perguntam se conseguimos montar as refeições nas quantidades recomendadas por seus nutricionistas. Fizemos testes e esse modelo vem dando certo”, explica.

Os planos partem de R$ 360 mensais. O negócio, que segundo Felipe vem crescendo, conta com dois colaboradores fixos, além de ajudantes extras em períodos de produção maior. “No início, cuidava sozinho da operação: produção, marketing, compras, vendas e entregas. Agora, também atendemos mercadinhos de condomínio, conveniências e pequenos mercados de bairro, ampliando o alcance.”

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