“A gente realmente perdeu a capacidade de dialogar”

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Os cabelos brancos chegaram como uma escolha estética. Depois, transformaram-se em uma declaração pública. Astrid Fontenelle fez do próprio envelhecimento uma conversa aberta, franca e necessária.

Aos 65 anos, a jornalista e apresentadora segue fazendo o que sempre fez de melhor: comunicar. Depois de atravessar diferentes fases da televisão brasileira — da MTV à Band, da Globo ao GNT —, ela se reinventou com o lançamento de um canal no YouTube e de uma plataforma voltada para mulheres com mais de 50 anos.

A nova empreitada parece ser uma continuação de uma trajetória construída com curiosidade, autenticidade e disposição para acompanhar as transformações do tempo sem abrir mão da própria identidade.

Nesta entrevista, Astrid fala com a franqueza que a acompanha há mais de três décadas, mostra que relevância não tem idade e que continuar em movimento talvez seja a forma mais bonita de permanecer contemporânea:

Você atravessou diferentes eras da comunicação brasileira. O que mudou mais: os meios ou as pessoas?

No meu primeiro grande contrato, que assinei com a Band, havia uma cláusula dizendo que eu cedia minha imagem e minha voz para TV, rádio, jornal, CD, DVD, Blu-ray e “outros veículos a serem inventados”. Na época, eu ri. Mas realmente mudaram os meios e evidentemente as pessoas também.

Em que momento percebeu que falar sobre idade deixou de ser uma questão pessoal para se tornar uma questão política e social?

Sou uma pessoa longeva na televisão, comecei com uns 20 e tantos anos. Então o meu envelhecimento foi público e notório. Mas foi só mais recentemente no [programa] Saia Justa, e quando digo recentemente me refiro à última década, já com os meus 48, 50 anos, que a gente começou a bater mais nessa pauta porque o mundo estava mudando, essa mulher que envelheceu estava no mercado de trabalho e se tornou mãe. Eu fui mãe aos 46 anos, estava com uma participação na política. Por tudo isto acabei transformando meu próprio envelhecimento em pauta.

O etarismo revela mais sobre quem envelhece ou sobre o medo de quem ainda não envelheceu?

O etarismo revela muito mais sobre quem ainda não envelheceu — ou talvez sobre quem está em negação diante do próprio envelhecimento. Existe uma dificuldade enorme em lidar com a passagem do tempo, embora envelhecer seja a melhor das alternativas. Porque a outra, que é não envelhecer, eu ainda não estou preparada para esta conversa. Portanto, o etarismo fala muito mais sobre a pessoa preconceituosa.

Há alguma liberdade que você conquistou depois dos 60 anos e que jamais abrirá mão?

Muitas. Algumas, aliás, eu tinha conquistado antes dos 60, mas a maior delas é ser dona do meu próprio negócio. Aos 65 anos, estou empreendendo na área da comunicação e lançando uma plataforma voltada para mulheres 50+. Isso é algo incrível. Outra liberdade que valorizo é a de dizer “não” com tranquilidade. Antigamente, para dizer um não, às vezes eu era mais agressiva ou demorava muito tempo e acabava fazendo coisas que não estava a fim. Acho que a liberdade tem muito a ver com isso.

O Brasil vive um período de forte polarização. Você acredita que perdemos a capacidade de discordar ou deixamos de ter interesse em compreender o outro?

Esta pergunta dá uma tese. A gente realmente perdeu a capacidade de dialogar, o ser humano perdeu a empatia, perdeu o respeito pelo outro. E isso é muito triste.

O que diferencia uma voz relevante de apenas uma voz barulhenta?

Na verdade, parece que produzem conteúdo, porque produzem ruídos. Quem produz conteúdo de fato segue sendo relevante, que é o meu caso.

Você já entrevistou artistas, intelectuais, lideranças e personalidades influentes. Qual é a característica mais rara entre as pessoas que realmente transformam a sociedade?

Esta é fácil: o carisma e a inteligência. As pessoas que transformam a sociedade são aquelas que têm coragem e conseguem sustentar uma ideia mesmo quando ninguém está acreditando nela. Penso em tantas mulheres da ciência que fizeram descobertas importantes e passaram anos tendo sua credibilidade questionada. Ainda assim, permaneceram firmes. Essa capacidade de continuar, mesmo diante da descrença, é algo raro e maravilhoso.

Ser mulher ainda muda a forma como as pessoas escutam, julgam ou reconhecem uma mesma competência?

Sem dúvida. Tivemos um exemplo clássico e grosseiro durante a Copa do Mundo. A Fernanda Gentil, uma jornalista esportiva com anos de experiência, entrevistando o Romário pela Cazé TV, e ele solta: “pessoas como você que não entendem de futebol”. É misógino, preconceituoso, machista, arrogante. E mostra como ainda existe a ideia de que certas competências pertencem aos homens, enquanto as mulheres precisam provar o tempo todo que sabem do que estão falando. Sim, ser mulher ainda muda a forma como as pessoas nos olham, nos escutam – se é que escutam – e principalmente nos julgam.

Você ouviu tantas mulheres extraordinárias em “Admiráveis Conselheiras”. Teve alguma entrevista mais marcante?

O meu tempo em Admiráveis Conselheiras foi curto, mas intenso e muito bonito. A maior surpresa aconteceu no início da temporada, na segunda entrevista que gravei, com Maria Adelaide Amaral. Na época, ela tinha 82 anos — hoje deve estar com 84 — e estava cheia de trabalho. Eu me lembro da mesa dela tomada por anotações, livros e projetos. Ela estava adaptando uma obra para o cinema, com o texto todo marcado. Aquilo deu um clique em mim. Eu pensei: “gente, é possível”. É possível continuar produzindo e criando com entusiasmo em qualquer fase da vida. Agora, a entrevista mais marcante foi a da Marília Gabriela, que falou sobre a solidão provocada por ela mesma. Vivemos uma vida glamourosa, como você mesmo falou: ‘já entrevistou artistas intelectuais, lideranças, personalidades’, e a gente fica amigo de uns e outros. É convidada para jantares, festas, viagens, mas tem uma hora que cansa e começa a dizer não. “Vamos jantar?” Não. “Vamos sair?” Não. “Vamos nos encontrar?” Não estou a fim hoje. E, quando você percebe, o telefone para de tocar. Isso me impactou porque eu era uma dessas pessoas. Por isso hoje em dia, me chamou, eu vou.

Você disse que a forma como foi comunicada sobre a sua saída da Globo a marcou. A experiência mudou a sua visão sobre reconhecimento e relações de trabalho?

Foi marcante, sem dúvida. Naquela conversa, duas admiráveis conselheiras me apresentaram números, estatísticas e indicadores para “justificar” a não continuidade do projeto e a impossibilidade de desenvolver um novo programa. Mas, sinceramente, essa experiência não mudou a minha visão sobre reconhecimento. Porque ela diz muito mais sobre aquelas pessoas que estavam no poder naquele contexto e não sobre a minha percepção sobre a minha potência, a minha capacidade ou todos os anos de serviços prestados. Tanto que me dediquei a criar um projeto pessoal, não para a televisão, mas para este universo digital, que sempre gostei muito.

O que a Astrid de 30 anos atrás diria sobre a mulher que você se tornou?

Você é muito foda!

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