Nas empresas, a convivência entre gerações deixou de ser uma característica natural das equipes e passou a ser um tema estratégico de gestão. Jovens que chegam para o primeiro emprego, profissionais em fase de consolidação da carreira e colaboradores experientes, alguns com décadas de trajetória, compartilham rotinas, responsabilidades e expectativas. O desafio está em transformar diferenças de comportamento, comunicação e visão de mundo em aprendizado mútuo e ganho para o negócio.
Enquanto alguns profissionais valorizam estabilidade, segurança e pertencimento, outros buscam crescimento acelerado, feedback constante e propósito. Há quem tenha facilidade com novas tecnologias e quem contribua com maturidade, compromisso e conhecimento acumulado ao longo dos anos. O desafio da gestão está em equilibrar essas características e criar um ambiente em que diferentes perfis se complementem.
Para Marina Leal Santos, segunda geração da franquia do McDonald’s em Maringá, essa realidade faz parte da operação. As lojas recebem jovens que estão iniciando a carreira, muitos em seu primeiro emprego, conciliando estudo e trabalho. Há colaboradores que começam a trajetória na empresa aos 16 anos, embora a maioria tenha entre 18 e 22 anos. Entre os jovens da equipe, 55% são mulheres.
A operação conta com cerca de 600 colaboradores. Destes, 183 têm entre um e quatro anos de empresa, enquanto 72 estão há mais de cinco anos e construíram carreira dentro da organização.
Segundo Marina, uma das principais dificuldades enfrentadas pelos jovens é equilibrar estudos, trabalho e vida pessoal. Outro aprendizado importante é compreender a diferença entre as relações pessoais e profissionais, desenvolvendo uma postura baseada em respeito, empatia e responsabilidade.
Setor dinâmico
No Catanio Supermercados, a convivência entre gerações também faz parte da rotina. De acordo com o sócio-administrador Miguel Luís Catanio, o varejo reúne naturalmente pessoas de diferentes idades, tanto pela dinâmica do setor quanto pela rotatividade característica da atividade. Para muitos, o supermercado representa a entrada para o mercado de trabalho; para outros, torna-se uma carreira de longo prazo.
“Só de entrar no supermercado, o consumidor identifica pessoas jovens e idosas ocupando, às vezes, até a mesma função, como os operadores de caixa”, observa Miguel. A empresa conta com colaboradores a partir dos 16 anos e profissionais acima dos 60.
Diferenças desafiam liderança
No Catanio, Miguel observa que os profissionais jovens costumam se adaptar com facilidade às novas ferramentas, enquanto colaboradores experientes podem demandar mais tempo para absorver mudanças. Em contrapartida, a experiência costuma trazer compromisso, presença e senso de responsabilidade.
Um desafio recorrente ocorre quando profissionais jovens assumem cargos de liderança. “Já tivemos situações de colaboradores de pouca idade, mas muita responsabilidade, liderando equipes. A dificuldade, nesses casos, está na falta de humildade ou maturidade do profissional mais velho em compreender que seu líder é mais jovem e que isso não representa um problema”, afirma.
Na Zacarias Veículos, empresa com 75 anos de história, a convivência entre diferentes gerações é parte da identidade organizacional. Dayane Aparecida Bulla Simões, gerente operacional do Grupo AF6, conhece essa realidade. Contadora por formação, ingressou na empresa há 23 anos como estagiária. Atualmente, responde pelas áreas financeira, de departamento pessoal e contabilidade das empresas do grupo do qual a Zacarias faz parte.
Para Dayane, a diversidade geracional é uma das maiores riquezas da empresa. “Temos colaboradores que acompanharam marcos históricos da organização dividindo espaço com jovens que estão dando os primeiros passos no mercado. Essa combinação une experiência e inovação de forma natural”, afirma.
Entre os mais experientes, as competências valorizadas costumam estar ligadas à maturidade, equilíbrio, resiliência, visão de longo prazo e construção de relacionamentos. Entre os jovens, aparecem com força a energia, a criatividade, a agilidade e a facilidade de adaptação às mudanças tecnológicas.
No Catanio, Miguel resume a principal contribuição dos profissionais experientes: compromisso. “Temos colaboradores com mais de dez anos de empresa que nunca apresentaram um atestado médico. Eles realmente têm compromisso e sabem o quanto é importante a comunicação e a presença no dia a dia das lojas”, afirma.
O que cada geração traz
As expectativas também mudam conforme a geração. No McDonald’s, Marina observa que os jovens valorizam benefícios, oportunidades e reconhecimento, mas isso precisa ser comunicado de forma clara. O seguro de saúde tem mais adesão entre profissionais mais velhos, enquanto a academia é mais utilizada pelos jovens. “Os benefícios mais valorizados variam conforme a geração. Por isso, essa avaliação do que é oferecido precisa ser sempre revisitada, para que se mantenha realmente atrativa”, explica Marina. A parceria com farmácia, segundo ela, foi criada a partir da escuta da equipe e acabou sendo valorizada por todas as gerações.
Na Zacarias, Dayane percebe movimento semelhante. Profissionais experientes tendem a priorizar estabilidade, segurança e saúde, enquanto os jovens buscam aceleração de carreira, aprendizado e propósito. No entanto, ela ressalta que respeito e acolhimento são necessidades comuns a todas as idades. Hoje 7% dos colaboradores da empresa têm mais de 60 anos, o que, segundo ela, demonstra o compromisso da organização com a longevidade profissional.
A empresa não delimita funções por idade. O que define a posição são competências, comprometimento e perfil profissional. “Na Zacarias, acreditamos que ninguém ensina ou aprende sozinho. O crescimento acontece quando essas diferentes perspectivas se encontram e se complementam”, afirma Dayane.
No McDonald’s, o treinamento contínuo é parte da operação. Além de cursos e trilhas de desenvolvimento, há cargos dedicados ao treinamento e programas de apadrinhamento. Para Marina, porém, o que mais contribui para a formação de quem está começando é o acompanhamento diário, o reconhecimento e o exemplo das lideranças. A nova geração, segundo ela, também tem provocado mudanças positivas na forma de gestão. “Vejo essa nova geração como intrinsecamente questionadora, e isso tem sido muito bom para nós”, afirma. A partir dessa postura, a empresa passou a explicar com frequência o motivo de processos e decisões, o que tem ajudado a repensar práticas internas.
No Catanio, Miguel também percebe que os jovens gostam de ser desafiados e demonstram desejo de crescimento, mas exigem uma liderança atenta ao perfil individual. Alguns se desenvolvem com cobranças mais firmes; outros podem desanimar diante da mesma abordagem. Para ele, independentemente da idade, cada pessoa tem uma forma de ser liderada.
A diversidade geracional pode gerar conflitos quando falta comunicação, mas se transforma em força quando há escuta e integração. Na Zacarias, Dayane afirma que sua própria trajetória é resultado dessa cultura. Ela entrou como estagiária e cresceu porque pessoas experientes acreditaram em seu potencial. Hoje, procura retribuir esse aprendizado com novos colaboradores. Para ela, além do treinamento técnico, é essencial que cada profissional compreenda a cultura da empresa e o impacto do seu papel.
A convivência entre gerações exige adaptação. Para as empresas, o caminho passa por lideranças preparadas, comunicação clara, benefícios alinhados às diferentes necessidades e oportunidades de desenvolvimento. Para os profissionais, o desafio é reconhecer que cada geração tem algo a ensinar e a aprender. Quando experiência e juventude se encontram com respeito, o resultado é inovação, pertencimento e equipes mais preparadas para os desafios do futuro.
